domingo, 6 de setembro de 2009

A vingança dos mexicanos




Eu já desconfiara, em julho, quando Maria Antonia enfileirou dezenas e canções hispânicas, irradiando a casa com termos absolutamente chicanos. Minha filha de 9 anos, que mora em Fortaleza, precisava de um choque de ordem musical. Sentei-a à mesa e empurrei goela adentro a história de Chico Buarque e Tom Jobim, diante de um tédio desanimador. Achava que era algo enfronhado na cultura do lugar onde mora. Até ir com ela, ontem (domingo) ao show da Isa TKM, heroína, eu descobri, de toda a Zona Sul carioca. Os ídolos da minha filha e de milhares de novas patricinhas são mexicanos. Foi difícil entender por que milhares de crianças se empurravam n Vivo Rio para ver a mocinha da Nickelodeon, cuja novelinha diária, dizem, vai ser exibida na Band.

Voltei no tempo e lembrei, obviamente, do Menudo e adjacências. Havia a mesma fervura, só que, sem a internet, tínhamos um limite para abarcar o pior que a cultura latina poderia nos oferecer. Mesmo assim, os pais levavam seus filhos aos estádios para ver Robby e Cia rebolarem ao som de Não se reprima.

Maria Antonia para tudo às 19h. Quando a novela feita em coprodução com a Sony Pictures Television, de 52 minutos de duração, escrita pela autora venezuelana Mariela Romero, vai ao ar, não há português que a tire de frente da TV. Estamos falando de uma hipnose fatal. Estamos agora no Rio de Janeiro, talvez um dos dias mais importantes da vida da minha filha. Ela vai poder cantar e bailar as 11 músicas que Isa Tkm, num momento do show, sabiamente, revela sua ansiedade: “Não sabíamos se vocês iam gostar de nossas músicas. Estamos muito felizes por isso”, disse a mocinha diante da ovação histérica dos fãs dos Beatles mexicanos.

O show é playback, claro. Com coreografia urdida na tradição porto-riquenha, quase aeróbica. E conta a historinha de Isa Tkm, que é apaixonada pelo garotão Alex, este dividido entre ela e uma outra menina que usa de várias artimanhas para mantê-la longe do sujeito. Roteirinho previsível. O espetáculo, com alguma pirotecnia, é pura reprodução do que funciona direitinho na TV.

Vejo Paulinho Moska e filho passarem e um monte de conhecidos, jornalistas, claro. Todos, decerto, intimamente pensando, “Onde vamos parar com isso?”. Numa criação mais controlada, Isa Tkm não faria parte do dia a dia da minha filha. Mas estamos sem tempo, o mundo pede a nossa presença, as contas, os problemas, o trabalho e o futuro. Eu, então... minha filha mora em Fortaleza. Ela vai ficar dividida entre o forró e Isa Tkm e não há nada que eu possa fazer, a não ser enfiar MPB em seus ouvidos. Momentos que, eu sinto, são de pleno terror para ela.
Não há espaço para andar no Vivo Rio, a casa de shows da companhia de celular no Aterro do Flamengo, alocada no MAM. Compramos uma bandana a R$ 10, e minha filha carrega um cartaz todo colado em papel A4 com dizeres como “Isa, em Brasil! Besos!”. Na primeira parte do show ela não consegue ver nada. Vamos combinar que eu, com quase 40 anos, não tenho tanta força muscular para botar no pescoço uma menina que está pesando 44 quilos, em meio a uma multidão. É quando alguém da produção pede aos pais que sentem para que seus filhos possam ver o show. Na segunda metade do espetáculo, então, aproveito a deixa para botar Maria na grade, colada no palco. É quando seus sonhos são realizadas. Ela consegue botar tocar a mão nas mãos de Isa e Alex. Diz que não quer tomar banho por muito tempo. Eu calo. Vejo que não é o momento de tirar o prazer chicano de minha filha. Amplificado por aquela horda de crianças exauridas.

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